D. Armando Esteves Domingues fez a conferência inaugural de um ciclo de conferências, associado à exposição “O Cabido Atlântico de Angra: fronteira da expansão da fé e da Coroa”

O bispo de Angra incentivou esta tarde o Cabido da Sé a “alimentar a comunhão” no seio do presbitério e a “encontrar respostas” para a urgência evangelizadora no mundo de hoje, onde existe “muito campo para a missão”.
Na conferência inaugural da exposição “O Cabido Atlântico de Angra: fronteira da expansão da fé e da Coroa”, promovida pela Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, em Angra, para assinalar os 490 anos do cabido, os mesmos que a Diocese celebra, D. Armando Esteves Domingues afirmou que uma das missões fundamentais do Cabido catedralício é “preservar o património espiritual que nos faz ser diocese viva e com uma história”.
“Um Cabido não é conservador ou progressista. Não é de ontem ou de amanhã. É de hoje, o hoje da Igreja de Cristo, que nos continua a garantir a assistência do Espírito Santo nos caminhos a seguir” afirmou o prelado.
“O Cabido continuará a caminhar em unidade com a Igreja Local e Universal, a alimentar a comunhão no seio do presbitério e a encontrar respostas para a urgência evangelizadora no mundo de hoje”, disse ainda destacando que a história do Cabido e da Diocese correm lado a lado.
“Falar do Cabido da Catedral é falar de uma instituição com a mesma idade da diocese, que esteve em cada curva do seu percurso, sempre seguro na unidade com os diversos Papas, atenta e interventiva nas crises e mudanças da Igreja, mas também políticas do país, seja da Coroa, seja da República, seja da Região, agora Autónoma”, afirmou.
“O Cabido da nossa catedral foi sempre capaz de responder e se renovar perante as tonalidades eclesiológicas dadas pela Igreja e seus Concílios Ecuménicos” tendo sido “influente no passado e vivo no presente com os desafios que uma nova eclesiologia e visão pastoral do Concílio Vaticano II nos trouxe e que ainda estamos a implementar nomeadamente o seu estilo sinodal que a Igreja universal é chamada a concretizar em todas as suas estruturas e instituições” prosseguiu.
“ Também no Cabido”, enfatizou.
D.Armando Esteves Domingues que optou por falar das várias fases dos cabidos ao longo da história da Igreja e do seu papel na administração eclesiástica e na vida pastoral, percorrendo a Idade Média, o Concilio de Trento, o fim do Antigo Regime e a época do Concílio Vaticano II, afirmou que desde a sua fundação revelaram sempre “um significativo dinamismo na construção do perfil religioso e cultural das dioceses”. Aliás, para além das funções litúrgica, administrativa e consultiva, os cabidos tornaram-se também ao longo da sua história, sobretudo na Idade Média, “importantes centros de cultura e conhecimento, possuindo bibliotecas e frequentemente escolas capitulares, onde se formavam futuros clérigos e intelectuais”. Acresceu, nessa altura, o protagonismo em assuntos da vida civil.
“Este entrecruzar de influências e de poderes levou-os a assumir uma grande importância nas sociedades urbanas medievais que as acolheram”, influenciando sobremaneira a vida pública nas diferentes dimensões.
O Concílio de Trento, no século XVI, provocou várias reformas, nomeadamente ao nível do poder episcopal e isso fez com que a autoridade do bispo prevalecesse sobre o governo diocesano, o que reduziu gradualmente a influência dos Cabidos, que restringem a sua ação a funções litúrgicas e consultivas.
É nesta altura que nasce o Cabido da Sé de Angra, criado pela mesma Bula de criação da diocese, a Aequum Reputamus, de 5 de novembro de 1534, assinada pelo papa Paulo III.
“Durante o século XVI, quando o Cabido foi criado, a sua organização seguia uma estrutura hierárquica típica da Igreja medieval, com uma clara distinção entre os diferentes níveis de clérigos/cónegos e suas funções e continuou a ter laços estreitos com o poder secular, refletindo a interdependência entre a Igreja e o Estado”, acrescentou o prelado.
Os bispos começaram a limitar a sua autonomia, sobretudo no domínio pastoral, na sequência do Concílio de Trento, enquanto os Cabidos, fortes nos seus privilégios e na sua influência política, resistiam. Esta situação terminou entre os séculos XVIII e XIX, com a Revolução Francesa e o fim da Igreja “do Antigo Regime”: o papel social do sacerdócio mudou, os nobres deixaram de fazer carreira religiosa e o Cabido tornou-se uma instituição menos política, recuperando a sua função de senado de colaboradores do bispo que o acompanhavam, sem ofuscar a sua dignidade, na gestão, na governação do serviço à diocese, disse ainda D. Armando Esteves Domingues que destacou a importância dos cónegos capitulares que governaram a diocese em longos períodos de sede vacante.
As mudanças do Concílio Vaticano II e as novas formas de consulta do bispo como os conselhos presbiterais e pastorais e ainda o recém criado Colégio de Consultores, fora do âmbito dos Cabidos, interferiram ainda mais na importância e dinâmica dos Cabidos, que foram sendo progressivamente esvaziados, embora nalgumas dioceses, com um pedido expresso à Santa Sé, tenham permanecido, mantendo as funções. Em Angra isso não aconteceu e o Cabido esteve inativo durante 15 anos.
“De altos e baixos se fará a história dos cabidos. O Código de Direito Canônico de 1983 não aboliu os cabidos, mas tornou a sua presença opcional nas dioceses. Redefiniu as suas funções, destacando a sua importância na liturgia e competências a atribuir pelo Bispo” frisou o bispo de Angra.
O Cabido Catedralício de Angra passou por diversas transformações e, em 2015, depois de vários anos sem nomeação de novos cónegos e de quase inatividade, foi revitalizado por D. António Sousa Braga para se adequar às necessidades contemporâneas da diocese. Atualmente, é composto por 12 cónegos capitulares, incluindo as dignidades de Deão, Arcediago, Chantre, Magistral e Tesoureiro, além de cónegos jubilados e honorários. No passado dia 11 de fevereiro, foram nomeados quatro novos cónegos para a Sé, em substituição de três que passaram à condição de jubilados e de um outro que faleceu. Estes novos cónegos tomarão posse no dia da Missa Crismal, na Catedral a 15 de abril.
A história do Cabido da Sé de Angra estará em exposição na Biblioteca de Angra