“Não é a dor da doença que dói mas a dor da solidão”- Padre José Júlio Rocha, capelão do Hospital da ilha Terceira

Este domingo é o Dia diocesano do Doente, altura para celebrar na diocese de Angra o Jubileu dos Doentes

Foto: O toque na relação profissional de saúde doente

A relação entre profissionais de saúde e doentes melhorou muito e humanizou-se nos últimos tempos, mas é preciso cultivar mais a proximidade e a presença, numa relação médico-doente que é sempre desequilibrada, afirma o capelão do Hospital do Santo Espírito na ilha Terceira, padre José Júlio Rocha, que juntamente com Odília Borges é o convidado do programa de Rádio Igreja Açores que vai para o ar este domingo, Dia Diocesano do Doente.

“O que vem da dor  não é uma dor em si mas a falta de um ombro onde chorar essa dor; por isso, muitas vezes não é a dor que dói, por causa da doença, mas a solidão da dor que deixa o doente com mais falta de esperança” afirma o sacerdote.

“Hoje há uma evolução enorme da parte dos profissionais de saúde que se preocupam tanto pelas pessoas, o ambiente hospitalar é muito  mais humanizado e acolhedor, mas tem de se continuar a apostar ainda mais na relação entre os profissionais de saúde e os doentes” refere o sacerdote que além de capelão é o assistente diocesano da Associação de Médicos Católicos nos Açores e membro da Comissão de Ética do Hospital da Terceira.

“Hoje com o avanço das máquinas é preciso evitar que elas se interponham entre o doente e o médico para que a relação não fique ainda mais desequilibrada. A proximidade ao doente, o abraço, o toque são essenciais” refere ainda lembrando que o profissional “tem de se dobrar diante do doente”.

Na entrevista sobre a esperança na doença, o sacerdote recordou que há “sempre mais esperança num hospital que na própria sociedade”.

“Num hospital, as pessoas estão  numa situação de fragilidade  e isso dá-lhes esperança de que alguém as cure, como aqueles aqueles doentes que procuram Jesus: Senhor tu podes curar-me” recordou o padre José Júlio Rocha.

“A nossa sociedade faz definhar a esperança porque é opulenta e quando os desejos não são satisfeitos entra-se em desespero e rapidamente se cai na falta de sentido”, disse ainda.

“A esperança é o sabor que dá sabor à vida” ressalvou ainda relembrando o episódio dos discípulos de Emaús que simboliza bem “o lugar da desesperança e do vazio”.

O sacerdote lembrou, ainda, que a esperança é alimentada pela fé.

“Se nós tivermos fé, esperança e uma mente a funcionar plenamente , conseguimos enfrentar a doença, a fragilidade. Infelizmente, estamos num mundo em que o amolecimento da fé e a absolutização da morte acentuam esta falta de esperança. Quem tem fé, ameniza a morte porque a considera um pórtico para outra dimensão. A morte é o nada é muito mais difícil de suportar para queles que não acreditam na vida eterna”, disse ainda.

Odília Borges, é locutora de rádio e catequista. Doente oncológica,  fala da doença metaforicamente como uma bênção.

“Só através deste diagnóstico é que tive a oportunidade de conhecer coisas que não conhecia: o amor da minha família, a amizade dos colegas e dos amigos, o profissionalismo e o carinho de todos os trabalhadores.  Nunca pensei ser tão bem tratada na vida” disse a propósito da doença oncológica que viveu.

“A minha fé aumentou muito porque me aproximei mais de Deus” testemunhou adiantando que a doença deu-lhe uma nova “sede de viver”.

“O cancro dá isto:  viver o essencial e relativizar tudo o que é acessório. Bastaria celebrarmos a alegria de estarmos aqui e tudo o que nos rodeia passa a ser muito mais belo” referiu ainda Odília Borges.

A locutora, que é mãe de quatro filhos, lembra no entanto que as doenças físicas, porventura, podem ser mais fáceis de suportar do que as doenças do foro mental e por isso pede para que haja “uma maior atenção ao cuidado destas doenças”.

A entrevista ao padre José Júlio Rocha e a Odília Borges pode ser ouvida na íntegra no próximo domingo no programa de rádio Igreja Açores, na Antena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra, a partir do meio-dia.

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