Texto evoca Credo, que sublinha divindade de Jesus, e apela à profissão de fé junto dos “mais pequeninos e vulneráveis”

No próximo dia 20 de maio, o mundo cristão faz memória dos 1700 anos da abertura do primeiro Concílio Ecuménico, celebrado em Niceia em 325, que entrou para a história principalmente pelo Símbolo que reúne, define e proclama a fé na salvação em Jesus Cristo e no Deus Uno, Pai, Filho e Espírito Santo. Mais tarde completado pelo Concílio de Constantinopla em 381, o Credo Niceno tornou-se, na prática, o bilhete de identidade da fé professada pela Igreja.
Por esse motivo, a Comissão Teológica Internacional (CTI) decidiu dedicar um documento de quase setenta páginas ao Concílio convocado pelo imperador Constantino na Ásia Menor, com o duplo objetivo de recordar o seu significado fundamental e destacar os extraordinários recursos do Credo, relançando-os na perspectiva da nova etapa de evangelização que a Igreja é chamada a viver na atual mudança de época, aproveitando a circunstância de que este aniversário ocorre durante o Jubileu da Esperança, que une cristãos, no Oriente e no Ocidente. O documento ‘Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador’, foi publicado esta quinta feira pelo organismo ligado ao Dicastério para a Doutrina da Fé.
“Anunciar Jesus, nossa Salvação, com base na fé expressa em Niceia, é estar particularmente atento aos mais pequeninos e vulneráveis dos nossos irmãos e irmãs. A nova luz que Cristo, o Filho homoousios (consubstancial) do Pai que partilha a natureza humana comum, lança sobre a fraternidade entre todos os membros da família humana ilumina de modo particular os que mais precisam da esperança da graça”, refere o documento.
“Estamos ligados por um laço radical e indestrutível a todos os que sofrem e são excluídos; todos somos chamados a trabalhar para que a salvação chegue a eles em especial”, acrescenta.
O Concílio de Niceia teve a missão de preservar a unidade da Igreja, perante correntes teológicas que negavam a plena divindade de Jesus Cristo e a sua igualdade com o Pai, reunindo cerca de 300 bispos, convocados pelo imperador Constantino, a 20 de maio de 325.
Os participantes acabaram por definir o ‘Símbolo de fé’, o Credo, que ainda hoje se professa nas celebrações eucarísticas dominicais.
“Dele veio o Credo que, completado pelo Concílio de Constantinopla de 381, tornou-se a carta de identidade da fé em Jesus Cristo professada pela Igreja”, sublinha a CTI.
O aniversário acontece num ano de Jubileu, convocado pelo Papa Francisco e centrado sobre o tema da esperança; em 2025 regista-se ainda a coincidência da data da Páscoa para todos os cristãos, no Oriente e no Ocidente.
“Como sublinhou o Papa Francisco, num momento histórico como aquele que vivemos, marcado pela tragédia da guerra e por inumeráveis inquietudes e incertezas, o essencial para os cristãos, a coisa mais bela, a mais atraente e ao mesmo tempo a mais necessária, é propriamente a fé em Jesus Cristo proclamada em Niceia”, indica a nota divulgada pelo Vaticano.
Segundo os responsáveis do CTI, o objetivo do documento “não é apenas reevocar o teor e o significado do Concílio [de Niceia], sem dúvida de capital importância na história da Igreja, mas trazer à luz os extraordinários recursos que o Credo, desde então e até hoje professado, conserva e relança na perspetiva da nova etapa da evangelização que a Igreja é chamada a viver”.
“A fé professada em Niceia abre o olhar para a novidade permanente acontecida com a vinda do Filho de Deus entre nós e leva a alargar o coração e a mente para acolher e transmitir o dom deste olhar decisivo sobre o sentido e sobre o destino da história”, pode ler-se.
‘Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador’ quer promover uma “nova consciência a participação na vida litúrgica e a formação à inteligência e à experiência da fé” das comunidades católicas, “estimulando e orientando o empenho cultural e social dos cristãos neste desafiante momento”.
“Em Niceia, pela primeira vez, a unidade e a missão da Igreja foram expressas de modo emblemático a nível universal (daqui a sua qualificação de Concílio ecuménico) na forma sinodal daquele caminhar juntos que lhe é própria, constituindo-se assim como um ponto de referência e de inspiração importante no processo sinodal em que a Igreja Católica está hoje mergulhada”, refere a CTI.
“Não é um simples texto de teologia académica, mas uma síntese que pode acompanhar o aprofundamento da fé e o seu testemunho na vida da comunidade cristã” sublinha o Vaticano.
Composto por 124 pontos, o documento é o resultado da decisão da CTI de aprofundar um estudo sobre a atualidade dogmática de Niceia.
O trabalho foi conduzido por uma subcomissão presidida pelo padre francês Philippe Vallin e composta por sete teólogos entre eles duas mulheres. O texto foi votado e aprovado em sua forma específica por unanimidade em 2024 e, em seguida, submetido à aprovação do cardeal presidente Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, no qual a Comissão foi instituída e aprovado pelo Papa em dezembro passado.
Os quatro capítulos em que se desenvolve a reflexão das teólogas e dos teólogos são precedidos por uma introdução intitulada “Doxologia, teologia e anúncio” e seguidos pela conclusão que deixa “um convite premente” para “anunciar a todos Jesus nossa Salvação hoje” a partir da fé expressa em Niceia.
O que foi o Concílio de Niceia
O Concílio I de Niceia é o primeiro Concílio Ecuménico e nele participaram bispos de todas as regiões onde havia cristãos. Teve lugar quando a Igreja já tinha conseguido a paz estável e dispunha de liberdade para reunir-se abertamente. Aconteceu de 20 de maio a 25 de julho de 325. Nele participaram alguns bispos que ainda tinham no seu corpo os sinais dos castigos que tinham sofrido por serem fiéis nas perseguições passadas, que eram recentes.
Foi o imperador Constantino que facilitou a reunião dos bispos, garantindo-lhes proteção imperial, logo depois da vitória contra Licínio, e da unificação do império. Na ocasião, a Igreja ainda não estava unida, havia mesmo grandes divisões, algumas delas pondo em causa a verdadeira divindade de Jesus. Entre os Padres Conciliares encontravam-se as figuras eclesiais de maior importância no momento, mas nem todos estavam de acordo. A grande decisão dos padres conciliares, para evitar a perputação das divisões e da confusão, foi redigir, baseados no Credo batismal da Igreja de Cesareia, um `símbolo de fé´ que fosse o reflexo, de forma sintética e clara, da confissão genuína da fé recebida e admitida pelos cristãos desde as origens. Nele consta que Jesus Cristo é “da substância do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado e não criado, homoousios tou Patrou (consubstancial ao Pai)”. Todos os Padres Conciliares, menos dois Bispos opositores, no dia 19 de junho de 325, autenticaram esse Credo, que é o Símbolo de Niceno.
Além desta questão fundamental, em Niceia fixou-se a celebração da Páscoa no primeiro domingo depois da primeira lua cheia da primavera, seguindo a práxis habitual na Igreja de Roma e em outras. Também foram tratadas algumas questões disciplinares de menor importância, pois eram referentes ao funcionamento interno da Igreja.
Na bula de convocação do Jubileu 2025, o Papa Francisco convidou as Igrejas cristãs a definir uma data comum para a Páscoa, destacando que este 1700.º aniversário “constitui também um convite a todas as Igrejas e comunidades eclesiais para avançarem rumo à unidade visível, não se cansando de procurar formas apropriadas para corresponder plenamente à oração de Jesus”.