O Sítio Igreja Açores falou com dois sacerdotes- padre Hermínio Mendes e padre Nuno Sousa- sobre este sacramento, sinal do Jubileu e da Quaresma mas que está em desuso

O Papa Francisco, ao longo do seu pontificado, tem desafiado os católicos de todo o mundo a procurar genuinamente o sacramento da Reconciliação, aprofundando-o neste tempo de preparação para a Páscoa, desejando que encontrem padres com misericórdia. Mas, apesar destes apelos, a verdade é que o sacramento da Reconciliação é cada vez menos vivido pelos cristãos, o que se torna mais evidente neste ano santo.
“O sacramento da confissão neste ano jubilar da esperança pode-nos devolver esta esperança que nos faz sonhar, espantar e avançar no concreto e nas coisas pequenas do dia a dia”, mas “o que mais nos tem feito falta é alguém que nos consiga olhar com atenção por dentro, alguém que nos faça sentir amados e tenha tempo para nos escutar. Isto desagua sempre numa desesperança porque nos vemos quase sempre sozinhos”, afirma o padre Nuno Pacheco Sousa, 34 anos de idade, cinco de ordenação sacerdotal.
“Os lugares de conversão e mudança de vida são justamente estes lugares em que fazendo um exame de consciência, aceitamos as consequências das nossas ações e tomamos como firme propósito a mudança de vida. Não basta o arrependimento, numa perspetiva beata de reconhecimento do erro e depois rezar três avé-marias e continuar a fazer o mesmo” afirma ainda o pároco de Rabo de Peixe, Calhetas e Pico da Pedra.
“A confissão implica mudança e disposição para mudar, esta conversão pessoal e espiritual concreta, com as penitencias, que é a missão da pessoa”, prossegue o sacerdote que não tem dificuldades em assumir que há uma “desvalorização óbvia” de todos da relevância deste sacramento que tem de ter como pórtico o acolhimento.
“Uma das coisas que me sai espontaneamente é sorrir e com esse sorriso procuro fazer com que a pessoa se sinta à vontade e possa confiar. Por outro lado, a ausência de julgamento leva à confiança”, acrescenta o padre Hermínio Mendes, 67 anos, 30 de sacerdócio.
“Quando escutamos estamos também a fazer uma leitura do nosso interior: se o outro tem faltas eu também tenho” refere, recordando o exemplo de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face que dizia que não há nada que aconteça aos outros que não lhe pudesse acontecer a ela ou que os outros fizessem e que ela própria não pudesse ter feito.
“Há pessoas que ainda se prendem a fórmulas, mas eu acho que o fundamental é ouvir. O Papa diz isso: ouvir muito e falar pouco, às vezes se calhar nem dizer nada, ou então dizer alguma coisa que ajude a pessoa a ganhar paz e coragem para enfrentar a sua vida” afirma o sacerdote terceirense que reconhece a escuta como “um dos lugares” onde o sacerdócio “ganha um novo sentido”.
“É maravilhoso pois há pessoas que vêm dizer que estão mesmo a aproveitar aquela oportunidade e até lá não tinham visto no horizonte da sua vida solução para os seus problemas. Naturalmente que uma escuta feita no contexto da celebração de um sacramento ganha um valor acrescido pois põe-nos num contacto de confiança absoluta em Cristo” acrescenta o padre Hermínio Mendes, que neste momento ajuda na Matriz de São Sebastião em Ponta Delgada.
“Ter a consciência de que nos devemos como que retratar interiormente, numa atitude de humildade, reconhecendo que somos pecadores mas ao mesmo tempo somos tocados pela misericórdia de Deus, é muito intenso”, refere ainda.
Este tem sido, de resto, um tópico muito desenvolvido pelo Papa Francisco quando afirma que o centro da confissão não são os pecados que dizemos, mas o amor divino que recebemos e de que sempre precisamos.
“O centro da confissão é Jesus que nos espera, nos escuta e nos perdoa. Lembrem-se disto: no coração de Deus estamos nós, antes dos nossos erros”, dizia o Papa no vídeo da Rede Mundial de Oração na Quaresma de 2020, quando pedia oração para que a Igreja não fosse uma alfândega.
“Julgo que os problemas relacionados com a falta de adesão ao Sacramento da Reconciliação prendem-se com dois lados: nós padres que somos ferramentas fraquinhas por assim dizer, muitas vezes sem a intuição para escutar, mas do lado de quem se abeira também não sei se há verdadeiramente noção do sacramento para além de uma atitude rotineira, quase a roçar a hipocrisia de usar um sacramento de maneira interesseira. Há de tudo”, diz o sacerdote.
Aliada a este desinteresse há também uma “perda de consciência, e de sabedoria de muita gente na destrinça entre o bem e o mal”, reconhece o padre Hermínio Mendes.
“A questão do perdão dos pecados não é exclusiva dos sacramentos; o perdão dos pecados é toda a missão e toda a obra de Cristo. Todo o evangelho nos convoca ao perdão dos pecados, toda a vida da Igreja tem esse objetivo do perdão dos pecados” salienta, por outro lado.
“O Cristianismo está cheio de histórias belíssimas de redenção, de purificação, de nos tornarmos conscientes, fazer agir”, conclui.
“A confissão deve levar a uma mudança de vida, corrigir o que está mal na forma como agimos, na forma como atuamos, mudar a relação com as pessoas e connosco próprios e neste aspecto, com um sentido bíblico de que Jesus vem libertar e curar e isso não se faz num tribunal mas num lugar onde as pessoas sejam acolhidas” diz por seu lado o padre Nuno Pacheco Sousa, sublinhando o valor da libertação do pecado.
“Em Rabo de Peixe, onde sou pároco, tenho aprendido muito sobre a importância deste sacramento. Se é certo que muitas pessoas ainda recorrem a ele por tradição, já há muita gente que o olha como um verdadeiro sacramento de cura, de libertação não de absolvição dos pecados mas de crescimento no amor de Deus”, conclui.

O Papa Francisco na Bula de proclamação do Ano Santo Extraordinário de 2015 afirma que “A misericórdia não é contrária à justiça, mas exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar. […] Esta justiça de Deus é a misericórdia concedida a todos como graça, em virtude da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Portanto a Cruz de Cristo é o juízo de Deus sobre todos nós e sobre o mundo, porque nos oferece a certeza do amor e da vida nova” (Misericordiae Vultus, 21).
O Jubileu, que estamos a viver, é por isso um sinal de reconciliação, porque abre um “tempo favorável” (cf. 2 Cor 6,2) à conversão.
Concretamente, trata-se de viver o sacramento da reconciliação, de aproveitar este tempo para redescobrir o valor da confissão e receber pessoalmente a palavra do perdão de Deus. Há em todas as igrejas jubilares dos Açores um itinerário e momentos próprios onde continuamente se pode celebrar este sacramento, não só durante a Quaresma mas durante todo o Ano Santo.
As entrevistas aos padres Herminio Mendes e Nuno Sousa poderão ser ouvida no programa de Rádio Igreja Açores, este domingo, depois do meio-dia, na Antena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra.